quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

O TRAPEIRO

A manhã de sexta-feira ainda não havia clareado quando avistei um moço bonito e forte, caminhando pelas vielas da parte baixa da cidade. Ele empurrava um velho carrinho, cheio de roupas novas e coloridas, e gritava com voz clara de tenor:

- Trapos.

Ah! o ar poluído e os primeiros raios de luz empoeirados não combinavam com aquela voz melodiosa.

- Trapos! Troco trapos velhos por novos! Levo embora os seus trapos! Trapos!

Que maravilha! pensei. O moço tinha uns dois metros de altura. Seus braços fortes e musculosos faziam lembrar dois galhos de árvores. De seus olhos faiscava inteligência. Será que ele não teria um trabalho melhor para fazer do que trocar trapos numa cidade do interior? 

Resolvi segui-lo. Foi levado pela curiosidade. E não me decepcionei.

Logo depois, o Trapeiro avistou uma mulher sentada na varanda dos fundos de sua casa. Ela chorava com um lenço no rosto, suspirando e derramando lágrimas em profusão. Seus joelhos e cotovelos formavam um triste X. Os ombros tremiam. Seu coração estava despedaçado. O trapeiro parou de empurrar o carrinho. Sem dizer nada, ele caminhou até à mulher, contornando latas, brinquedos velhos e fraldas.

- Dê-me seu trapo - ele disse gentilmente. - Vou trocá-lo por outro pano.

O moço pegou o lenço da mulher, ela ergueu a cabeça, e ele lhe entregou um pano de linho que brilhava de tão limpo e novo. A mulher olhou para o presente e, depois, para o moço, piscando sem entender nada.

Em seguida, quando voltou a empurrar o carrinho o Trapeiro fez uma coisa estranha: cobriu o rosto com o lenço da mulher manchado de lágrimas e começou a chorar. O choro era tão triste quanto o dela. Seus ombros tremiam. A mulher havia parado de chorar.

Que maravilha! pensei.

Segui o Trapeiro como se eu fosse uma criança querendo desvendar um mistério.

- Trapos! Trapos! Troco trapos velhos por panos novos.

Pouco depois quando o céu começou a ficar acinzentado por trás dos telhados e eu consegui enxergar as tiras das cortinas penduradas nas janelas escuras, o Trapeiro encontrou uma menina com a cabeça enfaixada e olhar inexpressivo. As ataduras empapadas de sangue deixavam escapar um filete vermelho que lhe escorria pelo rosto.

O Trapeiro  olhou para aquela criança com piedade e tirou um lindo boné amarelo do seu carrinho.

Dê-me seu trapo - ele disse, passando o dedo no rosto dela. - Vou trocá-lo pelo meu.

A menina limitou-se a olhar para o moço enquanto ele desenrolava as ataduras e as amarrava na própria cabeça. O boné foi colocado na cabeça dela. E eu prendi o fôlego diante do que vi: o ferimento saiu grudado nas ataduras! Da testa do moço corria um filete de sangue mais escuro, mais grosso. O sangue dele!

- Trapos! Trapos! Aceito trapos! gritava o Trapeiro forte e inteligente chorando e agora sangrando.

A claridade do sol ofuscou o céu e, agora, ofuscava meus olhos; o Trapeiro parecia estar com muita pressa.

- Você vai trabalhar? ele perguntou a um homem encostado a um poste de telefone. O homem balançou a cabeça negativamente. O Trapeiro insistiu: - Você tem emprego?

- Você é louco? - esbravejou o homem.

Ao afastar-se do poste, ele deixou à mostra a manga direita de uma jaqueta - solta, com o punho enfiado no bolso. Ele não tinha um braço.

- Dê-me sua jaqueta - disse o Trapeiro. - Vou trocá-la pela minha.

Apesar de suave, que autoridade tinha sua voz!

O homem de um braço só tirou a jaqueta. O Trapeiro fez o mesmo - e eu tremi diante do que vi: o braço do Trapeiro saiu com a manga da jaqueta e, quando o homem a vestiu, tinha dois braços perfeitos, fortes como galhos de árvores; mas o Trapeiro tinha só um.

- Vá trabalhar - ele disse.

Depois disso, ele encontrou um bêbado deitado inconsciente debaixo de um cobertor do exército - um velho, curvado, magro e doente. O Trapeiro pegou o cobertor e o enrolou em torno de si, deixando cobertores novos para o bêbado. 

Agora eu tinha de correr para acompanhar os passos rápidos do Trapeiro. Embora ele estivesse chorando incontrolavelmente, sangrando na testa, puxando o carrinho com um braço só, tropeçando, caindo várias vezes, exausto, velho, muito velho e doente, ele caminhava com uma velocidade incrível. Com passos rápidos e largos, ele atravessou rapidamente as vielas, quilômetro após quilômetro, até chegar ao limite da parte baixa da cidade. Em seguida, caminhou mais apressado ainda.

Chorei ao ver a mudança ocorrida naquele moço. Chorei ao ver sua tristeza. Mesmo assim, eu precisava ver onde ele estava indo com tanta pressa, talvez para saber o que o levava a fazer isso.

O Trapeiro, agora velho e pequenino, chegou a um aterro sanitário. Ele chegou perto dos fossos de lixo. Eu queria ajudá-lo no que ele fazia, mas permaneci afastado, escondido. Ele escalou um morro. Com muito trabalho limpou um pequeno espaço no alto do morro. Em seguida deu um longo suspiro. Deitou-se. Fez uma espécie de travesseiro com um lenço e a jaqueta e pousou a cabeça ali. Cobriu o corpo esquelético com um cobertor do exército. E morreu.

Ah, como eu chorei ao presenciar aquela morte! Afundei dentro de um carro transformado em ferro-velho e chorei como alguém que não tinha mais esperanças - porque eu passara a amar o Trapeiro. Todos os outros rostos haviam-se misturado ao rosto maravilhoso daquele moço, e eu o amava muito; mas ele morreu. Chorei até pegar no sono.

E eu não sabia - e como poderia saber? - que dormi a noite inteira de sexta-feira, e continuei dormindo durante o dia e a noite de sábado.

De repente, na manhã de domingo, fui despertado abruptamente.

Uma luz - pura, forte, insistente - bateu em meu rosto amargurado, e eu pisquei, olhei e vi a última e a primeira maravilha. Lá estava o Trapeiro, dobrando o cobertor com muito cuidado, com uma cicatriz na testa, mas vivo! E, além de vivo, cheio de saúde! Não havia sinais de tristeza, nem de idade em seu rosto, e todos os trapos que ele recolhera, brilhavam de tão limpos.

Abaixei a cabeça e, tremendo diante de tudo que presenciara, caminhei até o Trapeiro. Eu lhe disse qual era o meu nome, envergonhado demais porque, ao lado dele, eu não passava de uma triste figura. Em seguida, tirei as minha roupas e lhe disse com voz de súplica:

- Vista-me, vista-me.

Ele me vestiu. Meu Senhor, Ele me vestiu com trapos novos, e fiquei maravilhoso ao lado dele. Ao lado do Trapeiro, do Trapeiro, ao lado de Cristo!

Walter J. Wangerin

Aplicação: 

Chegamos à época em que comemoramos mais um Natal. Comemoramos o aniversário do nascimento de Jesus. Sim daquele judeu, filho de José e Maria, que nasceu tão humilde em Belém, numa rude estrebaria. Não há suntuosidade em seu nascimento. Ele é o Rei dos Reis, mas não nasceu em um palácio. Ele nasceu em uma casa que nem era sua. 

Ele veio e desde o seu nascimento se identificou com toda a humanidade. Ele se identificou com você e comigo em nossas mazelas e misérias, apesar de nos imaginarmos grandes demais. Ele sofreu as nossas dores e pagou o preço do nosso pecado. Ele se vestiu da pele humana e morreu sem nunca ter pecado apesar da morte ser o pagamento justo pelo pecado.

Mas quando tudo parecia sem sentido e a luz da esperança parecia haver se apagado, eis que o túmulo onde ele jazia foi aberto e Ele saiu, ressurreto e glorificado. Isso porque Deus se agradou de seu nascimento, vida, obra e morte. Isso porque Ele cumpriu a sua parte na minha e tua redenção. Isso porque Ele foi como um de nós e assumiu a nossa morte. Agora ele está vivo e o Natal deve ser celebrado com base nessa maravilhosa verdade. Podemos comemorar o Natal daquele que morreu, mas que ressuscitou, ouve, vê e sente quando celebramos sua vinda. 

Podemos nos aproximar dele e dizer: Vista-nos, vista-nos!

Feliz Natal a todos.

Um comentário:

  1. Olá, estou ainda emocionada com seu texto. Vejo que o escreveu pensando no Natal, porém o encontrei agora na Páscoa. Deus o abençoe! Vou postar em meu site para que mais pessoas tenham acesso. Paz de Cristo!

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