sábado, 22 de fevereiro de 2014

AS TRÊS VERSÕES DO MESMO HOMEM - CRIADO, CAÍDO E REDIMIDO

Certamente o homem não é o que deveria ser. O orgulho leva o ser humano a pensar que é o que não é, mas a mãe de todas as virtudes, a humildade, leva o homem a lamentar não ser o que deveria.

Com muito acerto podemos dizer que somos, ao mesmo tempo, três pessoas. A primeira é aquela que os outros pensam que somos. Elas nos concebem baseadas em observações. Alguns de mais perto outros mais distantes, alguns mais intimamente, outros superficialmente. Somos também aquilo que pensamos a nosso respeito. Nesse caso somos mais indulgentes e condescendentes. Paulo advertiu na carta aos Romanos (Cap. 12) que não pensemos de nosso respeito além do que convém, mas sim baseados na medida da fé que Deus repartiu a cada um de nós. Finalmente, somos o que somos. Muitas vezes isso coincide com o que pensam de nós, outras vezes não. Pode ser que sejamos, em um dado momento, aquilo que pensamos ser, mas como alerta Paulo, é possível que o orgulho nos leve a termos uma autoimagem equivocada.

Surge então o maior de todos os desafios que é buscar sermos exatamente aquilo que pensam de nós mesmos e que isso coincida com aquilo que sabemos ser exatamente. O dilema pode ser resolvido se nos concentrarmos em um tipo, um modelo que copiemos. No caso do cristão seu tipo e modelo é Jesus, o homem ideal. Essa é a tarefa para uma vida toda. Aliás, uma tarefa nunca plena de êxito. Sua razão de ser é se apropriar do projeto.

Jesus foi o segundo Adão. Ele veio com a missão de redimir o homem caído e toda a criação afetada pela queda. Ele é o modelo, pois nasceu como homem, viveu como homem, sofreu como homem, morreu como homem, mas em toda a sua trajetória e ministério terreno, como homem, ele não se deixou vencer pelo mal. Tendo sido tentado, em um ambiente totalmente propício para a queda (deserto, faminto) Ele não sucumbiu. Jesus usou a Palavra de Deus para resistir ao maligno enquanto os primeiros pais duvidaram dessa Palavra e caíram. Enquanto Adão quis ser como Deus, Jesus o segundo Adão, resistiu a oferta que Satanás lhe fez de ter toda a glória que o mundo poderia lhe proporcionar.

Jesus é o modelo de homem. Ele é o ser a ser imitado, copiado e seguido. Tê-lo como Salvador implica em tê-lo como Senhor, indubitavelmente, porque o redimido é regenerado, convertido, e assume, sob a influência do Espírito Santo, o compromisso de cumprir a sua vontade (João 14.21).

A educação cristã nada mais é o projeto, a tarefa de formatar no caráter do redimido as características do próprio Cristo. Paulo disse que Cristo vivia nele (Gálatas 2.19,20).

A educação cristã, com base na revelação de Deus, a natural, a específica e a encarnada (Cristo, cf. Hebreus 1.4), tem como alvo, modelar o cristão na pessoa de Cristo, restaurar a imagem de Deus perdida por ocasião da queda. É óbvio que essa tarefa não será plena a não ser após a ressurreição. Assim, o redimido vive a experiência do “já” e “ainda não”.

Assim veremos o homem em seus três momentos – CRIAÇÃO, QUEDA E REDENÇÃO. O homem na criação como ser perfeito, o mesmo homem agora imperfeito por causa da queda (desobediência) e depois redimido, regenerado, recriado, nascido de novo, tudo isso nas áreas da Biologia, Psicologia, Moral, Espiritualidade, Social, Cultural e Teológica.

Vejamos então:

CRIAÇÃO

O homem foi criado à imagem e semelhança de Deus. O Salmo 8 fala desse ser colocando-o em um patamar de superioridade em relação a tudo o mais que Deus criou. Não é exagero afirmar que, no estado de perfeição o homem (raça humana) era a coroa da criação, obra prima da arte Divina.

Nessa condição o ser humano podia interagir com as demais obras da criação, inclusive na condição honrosa de governante, gerente. Deus lhe deu ordenou que fosse fecundo, se multiplicasse enchendo a terra, sujeitando-a e dominando sobre todos os demais seres irracionais. Ele era perfeitamente habilitado para essa obra. Em todas as áreas ele era perfeito. Vejamos algumas considerações sobre essas áreas.

Biológico
O homem como um ser biológico, foi criado perfeito. Todos os seus sistemas (Nervoso Central e Endócrino) e órgãos, funcionavam em perfeita consonância. Vivendo em meio a um perfeito ecossistema, ele certamente estava totalmente livre de qualquer traço de envelhecimento e de morte física.

Psicológico
Criado perfeito, a partir da imagem e semelhança de Deus, o homem era plenamente sadio mentalmente. Sua forma de ver e pensar tudo ao seu redor era algo profundamente compreensível e prazeroso não havendo nenhum motivo ou razão para sentimentos de pesar ou de insatisfação.

Moral
Criado a partir da imagem e semelhança de Deus, o homem revelava um bom aporte moral que implicaria em uma vida ética correta de relacionamento entre seres racionais, irracionais, fauna e flora. Ao homem Deus confiou a tarefa de governar, gerenciar toda a criação. O homem foi criado um ser moral.

Espiritual
Diz o texto bíblico que Deus vinha na viração do dia (Genesis 3.8) ter comunhão com nossos primeiros pais. Eles eram perfeitos. Nesse sentido, sem pecado, eles podiam gozar de uma íntima comunhão e saudável relacionamento com o Deus todo santo. Não havia nenhum entrave para o relacionamento do homem, coroa da criação, com criador. Essa comunhão era a própria vida.

Social
O homem recebeu de Deus o mandato social. O homem é, desde os primórdios da criação, um ser social. Deus criou a mulher a partir do homem para que eles pudessem se servir um do outro em nível social. Esse relacionamento era perfeito antes da queda.

Cultural
A cultura é conhecimento, arte, crenças, lei, moral, costumes e todos os hábitos e aptidões. Nesse sentido o homem possuía conhecimento avantajado, sua arte era pura, sua fé era firmada no criador, sua moral ilibada e seus costumes sadios. Havia somente uma cultura.

Teológico
Antes da queda a teologia como ciência era a própria prática do relacionamento da criatura com o criador. Esse conhecimento de Deus era a própria vida para o ser criado.

QUEDA

A Bíblia no livro de Gênesis revela, também, a causa pela qual o homem viu a imagem de Deus, na qual fora criado, ser borrada, tornar-se opaca. Deus em sua manifestação da graça disponibilizou aos nossos primeiros pais o privilégio de poder desfrutar de tudo o que havia no Éden. Havia apenas uma restrição – não comer da árvore do conhecimento do bem e do mal. Deus deixou claro que se eles comessem dessa árvore eles iriam morrer – porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás. (Genesis 2.16,17)

Essa morte redundou em desdobramentos multíplices e em várias áreas da existência humana. O ser humano se viu limitado no campo biológico, psicológico, moral, espiritual, social, cultural e teológico. Analisemos esse resultado.

Biológico
Cumpre-se no homem aquilo que Deus havia predito se desobedecesse, ou seja, ele passa a experimentar o envelhecimento, a degeneração e consequentemente a morte física. Ele se torna susceptível a doenças, já que toda criação foi afetada por causa do pecado. O ser humano agora sentirá o peso do trabalho para poder, por meio dele, obter o seu sustento.

Psicológico
Vê-se a confusão mental no homem, após a queda, ao (1) ser possuído pelo medo (Genesis 3.10), (2) ter desenvolvido a lascívia e sensualidade (perceberam que estavam nus) (Genesis 3.7), (3) confusão mental, pois imaginaram poder se esconder de Deus.

Moral
A mente humana após a queda revela instabilidade moral já que começa o jogo do empurra-empurra, ou seja, ninguém quer assumir a culpa. O único que se cala no momento em que Deus profere a sentença e declara aquilo que conhecemos como Protoevangelho (Gênesis 3.15), é o Satanás.

Espiritual
Com a desobediência o homem deixa de ser perfeito e passa consequentemente a experimentar a morte espiritual que nada mais é, do que a alienação de Deus. O homem se torna totalmente inapto do ponto de vista espiritual em pegar o caminho de volta à comunhão outrora experimentada antes da queda. Quando Deus declarou que a desobediência redundaria em morte, Ele não se referia apenas à morte física, mas também à morte espiritual. Vida pode ser definida como comunhão com Deus.

Social
O resultado nefasto da queda no âmbito social se vê de imediato no lamentável episódio do homicídio de Abel perpetrado por seu irmão Caim. O homem passa a ver no outro um competidor e não como um companheiro ou parceiro na realização de um mundo melhor.

Cultural
A cultura é, em todos os âmbitos, afetada pelo pecado, seja no conhecimento, na arte, na questão dos usos e costumes. Paulo mostra isso no texto aos Romanos 1.28-32. O desprezo pelo conhecimento de Deus afetou todas as áreas do saber e do vivenciar. Assim agora temos uma variedade de culturas onde o pecado é caracterizado pela relatividade, ou seja, algo que seja ofensivo a Deus do ponto de vista bíblico revelacional pode ser entendido como permitido desde que esteja incorporado ao aporte cultural de determinado segmento ou grupo.

Teológico
O conhecimento de Deus é desprezado e isso é o resultado natural do pecado. Agora Deus não é experimentado na comunhão diária (na viração do dia), no Éden, em um lugar de perfeito ecossistema, em um mundo puro e perfeito. Deus agora se revela de forma específica em sua Palavra Escrita por meio de várias categorias literárias. O conhecimento do Ser de Deus é ofuscado na mente do homem, o mesmo que é descrito de forma tão notável no Salmo 8.

REDENÇÃO

Como a Bíblia nos revela, o homem caiu do seu estado de plena graça e perfeição. A comunhão que ele até então gozava com Deus, criador e pai, fora terrivelmente afetada e comprometida. Deus santo não pode se relacionar com um ser contaminado pelo pecado. O homem rebelde não tem de per si, condições de caminhar em direção a Deus e obter sucesso em sua tentativa de reaproximação e relacionamento. A religião é a tentativa humana de reaproximação do homem a Deus. Todavia a revelação escrita (Bíblia) afirma que o homem é totalmente inapto para isso.

A iniciativa de reaproximação foi do próprio Deus. Ele se tornou homem e caminhou entre os demais homens. Ele cumpriu sua tarefa na figura do segundo Adão. Agora todos aqueles que são redimidos vivem o processo de, mantendo comunhão íntima com Deus, serem reformatados (usando a linguagem da informática) na pessoa de Jesus. A educação cristã é a tarefa de imprimir o caráter de Cristo de tal maneira que o termo cristão não seja apenas uma referência àquele que publica sua fé em Cristo, mas a evidência indiscutível de que Cristo nele habita. Essa habitação é redentiva e pedagógica. Nesse sentido Jesus é Salvador (redime) e Senhor (governa o ser). O ser renascido em Cristo é reconstruído e todas as áreas outrora afetadas pelo pecado agora são moldadas na pessoa de Jesus (Efésios 2.8-10). Vejamos: 

Biológico
O homem redimido tem o compromisso de desenvolver todos os campos de investigação e ciência para procurar melhorar as condições de vida. A educação cristã certamente é o caminho pavimentado para que o homem, antes da plena redenção, possa viver com melhor qualidade, ainda em um meio a uma criação caída.

Psicológico
O homem redimido passa a viver uma vida de maior saúde espiritual. A santificação é o caminho para a sanidade mental. Declarar com fé que Deus é o nosso Pastor (Salmo 23) implica em uma cosmovisão diferente do homem meramente caído e ainda não redimido. O homem redimido tem o compromisso de fazer de sua mente um reduto onde Deus é Senhor. A cosmovisão do homem redimido aponta para o alto em uma atitude vertical. Pedro foi advertido por Jesus: “...você é uma pedra de tropeço, e não pensa nas coisas de Deus (vertical), mas nas dos homens (horizontal)”. (Versão NVI – parênteses meus). Agora ele é conduzido pelo Espírito Santo a confiar em Deus como seu Pastor e na Providência Divina suprida pelo conceito de que Deus é soberano e sua vontade é perfeita. Sua cosmovisão é filtrada pelos óculos da Escritura. A Bíblia é a oficina de sua alma.

Moral
É compromisso do homem redimido, abrir sua mente para a Palavra de Deus e acolhê-la em seu coração. Além disso, ele passa a fazer uso da oração como meio de graça. A presença do Espírito Santo faz do homem redimido alguém preocupado em pensar, falar e fazer aquilo que ele tem certeza absoluta de que é correto do ponto de vista ético e moral.

Espiritual
O homem redimido pode voltar à comunhão com Deus. Essa comunhão é a vida em lugar da morte produzida pela desobediência dos nossos primeiros pais. Ele é regenerado, convertido, justificado e adotado, que são atividades da economia divina e então passa a agir em busca da santidade. Esse projeto espiritualizante é a tarefa e a razão de ser de sua vida. Ele passa a ser consumido pela ideia de que deve viver para a Glória de Deus.

Social
O homem redimido ainda existe e coabita em meio a um mundo de pecado e pecadores. Assim ele ainda está sujeito a experimentar sérias dificuldades no campo do relacionamento interpessoal. Todavia, as circunstâncias adversas e de conflito são atenuadas pela certeza de que após a regeneração ele nunca está só. A educação cristã é sua tarefa. O mundo é sua sala de aula onde ele aprende tendo Deus como seu Mestre, e procura mostrar que esse caminho é o melhor a ser trilhado por aqueles que ainda se encontram perdidos, sem rumo e sem Deus. O cristão interage e se constitui em benção para o mundo na mesma perspectiva que Deus apontou para Abraão? Se tu uma benção.

Cultural
A cultura precisa ser igualmente critica pelo homem redimido. O filtro da cultura é a Bíblia Sagrada. Aquilo que ela condena e determina como “errar o alvo”, ou seja, pecado, transgressão e não pode ser absorvido com a desculpa de que cada um tem a sua cultura. Todas as “culturas” devem, pela instrumentalidade da educação cristã, se esforçar para assumir a cultura do Éden. Aliás, é para lá que caminhamos. O novo céu e a nova terra, o último estado dos justos é o novo Éden após sua plena redenção.

Teológico
O ser redimido precisa da teologia, como ciência, para poder conhecer Deus na intimidade e saber, assim, como viver para agradá-Lo. A teologia não pode ser um exercício de intelectualidade, mas sim um caminho para um relacionamento mais íntimo com Deus. A teologia não é um caminho de intelectualidade, mas sim de santidade. Como ciência a Teologia é Teologia para a vida e não para a mera especulação a respeito do Ser de Deus.

CONCLUSÃO.

Ao olharmos para o mundo ao nosso redor é comum percebermos esses três tipos de pessoas. O ser que outrora fora criado perfeito e que caiu em desgraça ao desobedecer. Com isso ele levou a si mesmo e a toda criação a um estágio de deterioração em todos os níveis. Esse mesmo ser caído continua em sua jornada a passos largos para uma eternidade sem Deus. Sim, porque Deus colocou a eternidade em seu coração (Eclesiastes 3.11). Encontramos, todavia, aqueles que pela graça e misericórdia, e também pelo mistério da Providência Divina, Deus escolheu para que fossem retirados dessa estrada de perdição e morte e fossem redimidos em Cristo o Filho de Deus, o próprio Deus encarnado. Esses redimidos são, paulatina e gradativamente, transformados à imagem e semelhança de seu Filho como bem se expressou o apóstolo dos gentios ao escrever: “Ora, como recebestes, Cristo Jesus, o Senhor, andai nele, nele radicados, e edificados, e confirmados na fé, tal como foste instruídos, crescendo em ações de graças”. Colossenses 2.6,7


Finalizo com as Palavras inspiradas de Paulo ao escrever a Tito: “Porquanto a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens, educando-nos para que, renegadas a impiedade e as paixões mundanas, vivamos no presente século, sensata, justa e piedosamente, aguardando a bendita esperança e a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador Cristo Jesus, o qual a si mesmo se deu por nós, a fim de remir-nos de toda iniquidade e purificar para si mesmo, um povo exclusivamente seu, zeloso de boas obras”. (Tito 2.11-14)

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