quarta-feira, 6 de julho de 2016

NA GRATIDÃO PODEMOS EXAGERAR



(Disponibilizo, com sua autorização, o texto de César Breder Chaves, meu genro. Adiciono aqui o que ele por humildade e sabedoria não disse, ou seja, que ele estudou sozinho, inglês e outras disciplinas para poder fazer os exames e ser aprovado. Foi um exemplo de dedicação e superação. Todos de nossa família nos orgulhamos dele e de sua conquista ao lado de sua esposa e filhos).

E mais um ciclo chega ao fim. Deixo a cidade de Hanover, New Hampshire, ansioso pelo que vem pela frente, mas com o coração grato a Deus por permitir que realizasse um sonho que parecia impossível.

Nesse momento me vem à memória uma história repleta de adversidades, desafios, superações e lições, mas marcada pelo valoroso apoio que recebi de muitas pessoas, apoio esse que gostaria de aqui registrar e honrar.

Tudo começou lá atrás, quando em meio a dias em que não sabíamos se teríamos o que comer, meus pais (Flávio Chaves e Inês) não se intimidaram e não mediram esforços para apoiar meus sonhos. O sacrifício que eles fizeram ao permitir que eu estudasse sozinho por 18 meses para o vestibular da FGV e o incentivo que me deram após 3 dolorosos fracassos foram incompreendidos por muitos, mas literalmente mudaram minha vida. Espero que Deus permita que eu tenha a mesma visão e a mesma humildade para engolir o orgulho e dar aos meus filhos um futuro melhor.

Contudo, esse sacrifício teria sido em vão se meus tios João e Ane Chaves Souza não tivessem, corajosa e gentilmente, sido meus fiadores no financiamento que fiz para pagar pela faculdade. E para ilustrar o risco que eles correram, não fosse por meu tio Osni, que fez um financiamento equivalente a um semestre da GV, eu não teria pagado sequer a primeira parcela do empréstimo - e teria perdido meu emprego também, já que bancários não podem ter seus nomes negativados no serviço de proteção ao crédito.

Porém, mal sabia eu, que começava ali uma série de dificuldades financeiras que iriam me acompanhar por vários anos e que quase me fizeram desistir do sonho de fazer um MBA no exterior. Mas Deus colocou em meu caminho pessoas muito especiais que não só me incentivaram, mas também viabilizaram esse sonho.

Ricardo Bonzo Filho, gestor responsável pela maior parte do meu desenvolvimento no banco, além de escrever todas as minhas cartas de recomendação para o processo de application para o MBA, ofereceu-se como uma espécie de fiador exigido pelo governo americano para emitir um visto de estudante.

Cesar Massao Okajima T'08 também escreveu todas minhas cartas de recomendação, mas mais do que isso, foi o grande responsável por eu ter aplicado pra Tuck (e provavelmente por eu ter sido aceito tb...).

Meu tio Eduardo Chaves, o qual descobri por acaso ser um tradutor juramentado, me presenteou com a tradução de meu diploma e histórico escolar, justamente num momento em que não tinha praticamente um centavo em minha conta para pagar por tal serviço.

E meu amigo Marcelo G. Cesar também merece uma menção especial. Naquelas incontáveis manhãs, horários de almoço e noites em que ficava no banco estudando para o GMAT, ele parece que sabia qual era a hora de entrar na sala e dar uma palavra de apoio. E além de pagar minha passagem para os EUA (e minha passagem de ida para o casamento de meu irmão), ele ajudou a abrir uma das portas mais importantes: a porta financeira.

Eu sempre soube que não teria condições financeiras para arcar com esse sonho, mas desde o início eu o coloquei nas mãos de Deus, na certeza de que se fosse da vontade dEle, as portas seriam abertas. E se não fosse, ao menos eu não iria me arrepender de sequer ter tentado.

Após ser recusado pelas poucas fundações e institutos que investem em brasileiros que querem fazer um MBA no exterior, eu me vi completamente sem alternativas. Até que um dia, inspirado numa combinação de soluções que pesquisara, eu compartilhei com o Marcelo uma ideia: criar um fundo de investimento no qual o valor investido seria revertido para minhas despesas durante o MBA, e o rendimento seria uma porcentagem fixa de toda minha renda durante 10 anos, contados a partir de um ano da minha formatura. Uma ideia muito interessante, por sinal, que permite que o pagamento não comprometa o meu salário de forma significativa, mas ao mesmo tempo torna o retorno para os investidores potencialmente muito atraente, uma vez que se eu for bem sucedido, eles receberão um valor muito superior ao investido.

Fiz uma série de cálculos e preparei uma apresentação, os quais o Marcelo revisou inúmeras vezes. O plano estava pronto. Faltava apenas um pequeno detalhe: quem iria colocar dinheiro nessa ideia maluca? Ricardo e Marcelo sondaram a pessoa que achávamos que teria maior potencial para fazer o primeiro aporte. A recepção da sondagem foi boa e então eu marquei um almoço com o potencial investidor.

De origem humilde e filho de dois funcionários públicos, Luis Otávio Matias saiu de José Bonifácio, no interior de SP, pra se formar em direito e começar uma carreira brilhante que o levou a se tornar Vice-presidente do maior banco da América Latina. Tive o privilégio de trabalhar sob sua liderança durante muitos anos no Itaú, mas nunca tive a oportunidade de desfrutar de sua intimidade a ponto de conhecer o tamanho de sua humildade e generosidade.

Admito que quando apresentei a ele o meu plano, esperava que ele fosse fazer um aporte no fundo, mas com ele no fundo eu poderia atrair mais investidores. Para minha surpresa, contudo, nada disso foi preciso. Luis Otávio topou ser o único investidor, e arcou com 100% de todas as minhas despesas. Não vou mencionar o valor aqui, mas você pode ter uma ideia se tentar estimar quanto seria necessário para começar sua vida completamente do zero num outro país e sustentar esposa e dois filhos ao longo de dois anos. Aluguel, mobília, carro, plano de saúde (que é absurdamente caro nos EUA), passagens para minha família, despesas com alimentação, remédio, internet, TV, celular, etc. Tudo isso foi viabilizado através do investimento feito pelo Luis Otavio. Eu não tinha sequer dinheiro para comprar agasalhos para suportar o frio de -25 graus em NH.

Às vezes gosto de pensar que foram minha criatividade e persistência que o atraíram a fazer esse grande investimento. Contudo, sei que na verdade ele foi motivado por sua generosidade e humildade. Humildade em reconhecer que uma pequena parte de seu sucesso se deve a oportunidades que não surgem para todos. E generosidade em entender que ao me ajudar estaria de certa forma retribuindo à vida pelas oportunidades que lhe dera.

Luis e eu acreditamos que essa história possa servir de inspiração para outras pessoas. Tanto para jovens que estão quase desistindo de perseguir seus sonhos por falta de recursos, quanto para pessoas que estão procurando uma maneira inteligente, eficaz, e mais importante, sustentável de ajudar o próximo.

Finalmente, não posso deixar de mencionar minha esposa. Eu poderia agradecer a ela pelo tempo cedido, por aguentar minha ansiedade (e stresse) ao longo do processo, pelas orações de joelhos a cada entrevista de emprego e pelas lágrimas roladas após tantos fracassos. Mas agradecer não é suficiente. Na verdade, agradecer não é justo, pois agradecer seria dizer que ela contribuiu para uma conquista minha, quando na verdade ela é tão dona dessa conquista quanto eu. Por isso, ela assina comigo esse post.

Amigos queridos, obrigado de coração pelo que vocês fizeram por nós. Vocês não só tornaram esse sonho possível. Vocês mudaram nossas vidas, e por isso ser-lhe-emos eternamente gratos. Que Deus retribua vocês pelo que fizeram, e que nos dê a capacidade de fazer por outros o que vocês fizeram por nós.

Cesar, Juliana, Biel e Bolão.


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