terça-feira, 18 de outubro de 2016

A RUA DA MINHA INFÂNCIA

A RUA DA MINHA INFÂNCIA

“Boas lembranças são bálsamos que curam feridas e nos fazem viver mais”.
Mauro Sergio Aiello

Lembrar a infância é algo que sempre me traz enorme alegria e prazer. A memória é uma caixa onde guardamos os fatos que marcam a vida da gente, sejam coisas boas ou não. Tenho muitas lembranças da minha infância e a recordação da rua onde passei essa fase de minha vida me enche de alegria. A rua da minha infância se chamava (e ainda se chama) Amor Perfeito. Querem nome mais bonito que esse? É o nome de uma flor. O Jardim Popular, bairro onde morava, tinha as ruas com nomes de flores. Só que ela não era, do ponto de vista da topografia, um Amor Perfeito. Era na verdade uma picada. Somente quando o trator passava é que nos lembrávamos que se tratava de uma rua. O mato insistia em tomar conta daquela rua. Era em declive, uma descida (e no sentido contrário, uma subida, é claro). Havia pouquíssimas casas naquela picada; sete que eu me lembre. Havia uma casa do outro lado da rua, mais abaixo da minha, onde havia uma árvore enorme bem na frente da porta da sala. Era gostoso sentar ali à noite, com os moradores daquela casa e, diante de uma pequena fogueira que aquecia e ao mesmo tempo iluminava, pois não havia luz elétrica, ouvíamos histórias de arrepiar os cabelos – A Mula Sem Cabeça; Fantasmas; Casas Mal Assombradas, e outras coisas do gênero que, contadas naquele ambiente, criavam um clima de muita adrenalina. Ao lado daquela árvore enorme havia um pé de babosa, que passávamos no cabelo substituindo a tal da brilhantina ou do óleo Nujol.

O verão era aplaudidíssimo pela garotada. Chovia à tarde e pela manhã fazia um sol de rachar mamona. A garotada descia, pés juntos, passo a passo, criando um caminho sinuoso, formando um piso duro por onde fazíamos nosso enduro nos carrinhos de “rolimã”. É verdade que os mais velozes sempre se arrebentavam. E o mercúrio cromo coloria esse pessoal. Eu fiquei vermelho muitas vezes.

Outra lembrança da rua da minha infância era o campo de futebol na esquina com a avenida Jaime Torres. Esse campo era ladeado por frondosos eucaliptos. Todas as tardes, lá estava aquele mundaréu de moleques correndo atrás da bola de capotão. No entanto, numa bela tarde de chuva, um raio destruiu a copa de um daqueles eucaliptos. Depois disso, era só dar indício de chuva e a garotada se recolhia. Na rua da minha infância nós brincávamos de “mão na mula”, “esconde-esconde”, “polícia e ladrão”, “pular cordas (com as meninas)”.

Nos meses de junho e julho, os poucos moradores costumavam comemorar as festas juninas e julinas. Faziam fogueiras e assavam mandioca, batata doce. Estouravam pipocas e faziam uma bebida chamada quentão, uma bebida com pinga e gengibre que espantava o frio do inverno. A garotada se divertia pulando a fogueira. Ficávamos até altas horas da noite ali, diante das brasas e só depois, quando já estávamos muito cansados é que íamos dormir.

Naquela rua as pessoas colocavam bancos em frente à cerca, onde nos assentávamos à tardinha para um bate-papo gostoso. É verdade que à fofoca corria solta, mas é triste ver que hoje em dia tiraram os bancos e os bate-papos acabaram (mas as fofocas não).

Minha mãe me comprou uma bicicleta e eu descia e subia aquela rua, cantarolando músicas. Recordo-me da música interpretada pelo cantor Noite Ilustrada que dizia assim: “Levanta sacode a poeira e dá volta por cima. Chorei....”. Havia as músicas do Miltinho, do Nelson Gonçalves, do Moreira da Silva. Foi nessa rua que vivi a experiência da Jovem Guarda e cantei....”Quero que você me aqueça nesse inverno e que tudo o mais vá pro inferno...” (que Deus me perdoe, mas eu cantei).

Naquela rua, cujo “asfalto” derretia na chuva e grudava como cola na sola do sapato, morava e ainda mora o dentista – Dr. João. Foi ele quem arrancou os três dentes que me faltam. Naqueles dias não se tratava canal dos dentes... era boticão na certa. Bem, mas pelo menos... o Seu João nunca cobrou um tostão. Esse é um amigo que carrego no peito com muita gratidão por sua bondade notória.

Recordo-me da casa de Dona Maria e Sr. José. Eles tinham três filhas: Geni, Esmeralda e Marisa, nessa ordem. O Seu José tinha uma caminhonete Studebacker. Ficamos tristes quando eles mudaram para o bairro da Lapa e nunca mais os vimos. Parece que eles queriam se ver longe do barro, do mato, e da gente.

Lá morava o Sr. Henrique, que trabalhava na Light (Eletropaulo hoje). Já era de idade, tanto ele quanto sua mulher. Não tinham filhos e por isso não gostavam muito de crianças. Quando a bola caía lá na casa deles, sorteávamos quem ia buscar. São lembranças que tenho prazer em resgatar, momentos nos quais me comprazo.

Era para o alto daquela rua que eu olhava todo final de tarde e esperava meu pai chegar com seu jeito espartano de andar. Era a rua da minha infância – a rua Amor Perfeito. Em um dia desses andarei pelas ruas de ouro e cristal, como diz o tão belo hino. Espero vê-lo lá.

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